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Bancos tradicionais buscam espaço em meio ao crescimento das fintechs no país

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Bancos tradicionais buscam espaço em meio ao crescimento das fintechs no país Freepik
► Itaú reporta lucro recorrente de R$ 5,030 bilhões no 3t20; Minerva tem Lucro de R$ 58,3 mi► Presidente do BC afirma que PIX irá estimular o crescimento das fintechs sem prejudicar bancos tradicionais

A evolução tecnológica e a busca por serviços menos burocráticos fizeram o número de brasileiros que utilizam as fintechs (pequenas empresas de tecnologia do setor financeiro) crescerem exponencialmente nos últimos anos. Uma prova disto são os dados divulgados, em outubro, pela companhia de inovação aberta Distrito que apontam um crescimento de 34% dessas empresas em 2020. De janeiro a setembro, as startups brasileiras receberam US$ 2,2 bilhões em investimentos, sendo que desse total US$ 939 milhões foram investidos em fintechs. O Brasil apresenta um total de 828 dessas novas financeiras, um crescimento de 34% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o estudo.

As fintechs brasileiras se dividem principalmente entre 14 áreas de atuação. As três maiores: meios de pagamento (16,3%); backoffice (15,5%) e crédito (15%). Na sequência, aparecem empresas de risco e compliance (8,8%); serviços digitais (7,1%); investimentos (6,4%); criptomoedas (6,3%); tecnologia (5,3%); fidelização (4,8%); crowdfunding (4,6%); finanças pessoais (4,2%); dívidas (2,2%); câmbio (2,1%) e cartões (1,4%).

“A América Latina possui um mercado extremamente aquecido no setor de fintechs e o Brasil é o grande destaque da região. Apesar da crise, em 2020 observamos que essas startups não foram engolidas por empresas ou grandes bancos. Pelo contrário, percebemos uma aproximação cada vez maior desses players, seja por programas de aceleração, por parcerias ou mesmo contratações”, afirma Tiago Ávila, líder do Distrito Dataminer, responsável pela elaboração de estudos do universo de startups.

Para a porta-voz do C6 Bank, Verena Fornetti, o crescimento das operações financeiras via mobile tem sido uma tendência geral e não apenas nas empresas digitais. Segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), as transações por telefone aumentaram de 20% do total em 2015 para 44% no ano passado.

"A pandemia e o pagamento do auxílio emergencial aceleraram esse processo. Nesse contexto, os bancos digitais, que possuem estruturas mais enxutas (sem, por exemplo, os custos de agências físicas), tendem a oferecer condições competitivas para os clientes. O C6 Bank tem sido destaque nesse processo. Segundo estudo do UBS (empresa de serviços financeiros com sede em Zurique), o C6 Bank teve o maior crescimento entre os bancos digitais no Brasil, com uma expansão de 48% em sua base de clientes no terceiro trimestre", pontuou.

Já o Head de Produtos Pessoa Física do Banco BS2, Gabriel Ferreira, ressalta que os consumidores estão cada vez mais exigentes sobre a qualidade e agilidade que esperam de um serviço financeiro. Segundo ele, a pandemia despertou em muitos brasileiros a curiosidade sobre uma série de serviços que ainda não eram testados, como a abertura de contas em bancos digitais.

"Os consumidores estão cada vez mais ávidos por uma melhor experiência virtual. Como o BS2 já nasceu 100% online, temos o propósito de transformar a experiência financeira com simplicidade e transparência. Em plena pandemia, nossa base de clientes subiu quase 60%. Ou seja, todos os serviços que prezam pela comodidade do cliente, de realizá-lo em sua casa, acabaram se destacando ao longo desse período e com os bancos digitais não foi diferente. O BS2, por exemplo, não cobra tarifas de serviços de seus clientes, a conta não possui mensalidade e todos os serviços como TEDs (Transferência Eletrônica Disponível), saques na Rede 24 horas, cartão virtual e débito, emissão de boletos, são gratuitos. Tudo isso contribui para a atratividade de novos clientes", justifica Gabriel Ferreira.

Fechamento de agências

Com o aumento dos hábitos digitais por causa do isolamento social, uma tendência tem atingido os principais bancos privados do país: o fechamento de agências bancárias. Apenas neste ano, cerca de mil agências do Itaú Unibanco, do Bradesco e do Santander fecharam as portas, resultando na demissão de 11.000 funcionários. Recentemente, o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, comunicou ao mercado que a instituição espera fechar mais de 1.100 agências até o final do ano, com o intuito de economizar cerca de R$ 879 milhões. Este movimento de readequação de gastos faz parte de uma reestruturação financeira que vem sendo demanda pela economia digital e pela queda no lucro do banco, que recuou mais de 30% no terceiro trimestre de 2020.

"Muitas agências ainda serão transformadas em unidades de negócio, que têm um custo de 30% a 40% menor [do que as agências], por não contarem com gastos como de vigilante e carro forte, por exemplo, e que são de 20% a 30% mais eficientes, já que todos os funcionários estão dedicados a fazer negócio. Apesar de termos reduzido nossas despesas nos nove meses deste ano, em relação a igual período de 2019, elas ainda estão muito elevadas”, afirma Lazari.

O Itaú Unibanco também passa por um movimento similar. Analistas de mercado avaliam que a escolha do novo presidente da instituição, Milton Maluhy Filho, que assume em fevereiro do ano que vem, representa uma mudança no paradigma da empresa, apoiado na oferta de serviços no meio digital. Apesar do fechamentos de algumas agências, o maior banco privado do país informou, em nota, que ainda vê relevância na relação presencial com seus clientes.

“É evidente a transformação tecnológica recente e a procura cada vez maior pelos canais digitais, mas nossa rede física de agências segue cumprindo um papel muito relevante (…) como um espaço mais humanizado de relacionamento e consultoria”, reportou o Itaú.

Para Gabriel Ferreira, a digitalização e a crescente demanda por soluções mais ágeis e fáceis estão contribuindo para essa mudança comportamental da sociedade. Segundo ele, essas pessoas que estão abrindo contas em bancos digitais são os primeiros adopters (primeiros consumidores que compram um produto recém-lançado), chamados de nativos digitais, que estão mais abertos a terem uma experiência 100% digital.

"Eles já descobriram que não é preciso ter uma agência física do banco, pois é possível resolver tudo por aplicativo, chat ou telefone, além de poder contratar tudo de forma online com uma ótima experiência. Outro benefício é que os bancos digitais não cobram tarifas e não vendem produtos baseado em metas de gerentes. Nosso relacionamento com os clientes é mais transparente e justo. Dessa forma, vemos que, conforme a população for envelhecendo e cada vez mais nativos digitais entrem na população ativa, os bancos tradicionais perderão mais clientes – a não ser que se mexam e se modifiquem", avalia Ferreira.

PIX

Nesta segunda-feira (16), o PIX, novo sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central (BC), começou a funcionar de forma integral depois de passar por uma fase de testes de duas semanas. Com a nova tecnologia, a tendência é que as fintechs cresçam ainda mais, especialmente as de meios de pagamento. Dois dias depois da inauguração oficial, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, confirmou que o PIX irá estimular o crescimento das startups financeiras, mas sem tirar espaço dos grandes bancos brasileiros.

Na avaliação de Campos Neto, o novo sistema de pagamentos não irá diminuir a receita das tradicionais instituições financeiras. Na verdade, ele afirma que o PIX irá gerar novos modelos de negócios e aumentará a chamada "bancarização" (ampliação do acesso aos serviços que os bancos e fintechs oferecem para os consumidores), que vem sendo estimulada pelo auxílio emergencial.

"Não achamos que isso é um movimento que vai atrapalhar os grandes bancos. A gente acha o contrário. A gente acha, talvez, que o mercado do futuro seja os grandes bancos terem uma fatia um pouco menor de uma torta muito maior, porque gera inclusão financeira, gera bancarização, gera novos modelos de negócios", explicou o presidente do BC.

Em relatório divulgado no mês passado, a agência de classificação de risco Moody’s estimou um cenário contrário ao apresentado por Campos Neto. Segundo a agência, os bancos podem perder até 8% da receita atual com tarifas por conta da entrada em vigor do PIX. A estimativa foi feita com base nos dados acumulados de 12 meses até junho. De acordo Moody’s, desde 2017, as transferências via TED cresceram 31% em média nessas instituições financeiras.

“O PIX será um concorrente direto dos sistemas de pagamento existentes, incluindo TED e pagamentos com cartão de débito por causa de seu sistema digital mais barato e rápido”, finalizou a Moody’s.

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