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Matéria-prima e insumos estão em falta para quase 70% da indústria; escassez traz reflexos na inflação

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Matéria-prima e insumos estão em falta para quase 70% da indústria; escassez traz reflexos na inflação Pixabay
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Mesmo com alguns setores da economia patinando e sem retomar os índices de atividade pré-pandemia, os preços seguem pressionados em várias frentes. O Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado no quinta-feira, 17, pelo Banco Central, dobrou de 2,1% para 4,3% a projeção de inflação para 2020. A revisão foi motivada em boa parte por uma “surpresa inflacionária” nos preços dos alimentos, bem industriais e combustíveis.

Insumos, como o minério de ferro e a soja, estão com cotações históricas no mercado internacional e a desvalorização do real torna esses produtos mais atraentes para a exportação do que para consumo interno. A falta de produtos essenciais para a produção, aliada a uma baixa nos estoques e ao reaquecimento econômico catalisado pelo auxílio emergencial, produziu um cenário em que a demanda está pressionando a oferta. Para o consumidor final, o resultado são atrasos nas entregas de pedidos e alta nos preços.

”No auge da crise, vimos a desmobilização das cadeias produtivas e baixos estoques. Além disso, temos a forte desvalorização do real, que contribuiu para o aumento do preço dos insumos importados”, diz Robson Braga de Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Levantamento da CNI, feito em outubro, revelou que 68% das empresas consultadas pela entidade estão com dificuldades para obter insumos ou matérias-primas no mercado doméstico e 56% das empresas que utilizam insumos importados regularmente também estão com dificuldade para comprá-los. A pesquisa mostrou ainda que 82% dos industriários perceberam alta nos preços e 31% falam em alta acentuada.

Entre os setores mais afetados estão o de produtos têxteis, veículos, celulose e papel, plástico e metais e borracha.

Em entrevista ao Jornal Nacional, a presidente da Associação Brasileira da Indústria do Mobiliário (Abimóvel), Maristela Longhi, listou os itens em falta no seu setor: “chapas de painéis de madeira, o MDP, o MDF, o plástico, papel, papelão, ferragens, vidros, acessórios, enfim, entre tantos”. O setor, que vê um aumento na procura por seus produtos em razão da reclusão provocada pela pandemia, está com dificuldades para cumprir prazos com os clientes.

Ainda de acordo com a CNI, a situação é mais grave entre as empresas de pequeno porte. Nesse segmento, 70% foram afetadas pela falta de insumos ante 66% nas grandes. Além disso, o percentual de empresas menores que afirmam enfrentar muita dificuldade é maior, alcançando 28% entre as pequenas empresas e 27% entre as médias.

A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) fez esse mesmo levantamento com 315 indústrias do Estado e os resultados reforçaram a sensação que a despensa da indústria está vazia.

Os dados apontaram aumento na percepção dos empresários de que faltam insumos ou matérias-primas nacionais, ainda que se pague mais caro pelo produto.

Em novembro, esse foi o sentimento de 67,1% dos entrevistados pela entidade – número 1,7 ponto percentual acima do observado no mês anterior. Uma parcela de 11% destacou que a maior parte da sua demanda não está sendo atendida e 44,3% dos empresários ouvidos relataram dificuldade para cumprir prazos e atender à demanda dos clientes.

Impacto nos preços

A Fundação Getúlio Vargas (FGV) pesquisa mensalmente o Índice de Preço ao Produtor Amplo (IPA), que é o principal indicador da evolução dos preços no setor atacadista. Ele registra variações de preços de produtos agropecuários e industriais nas transações entre as empresas, isto é, nos estágios de comercialização anteriores ao consumo final. No cálculo do Índice Geral de Preços (IGP), o IPA tem peso de 60%.

Em outubro, o IPA foi de 4,15%, enquanto a inflação oficial do IBGE foi de 0,86%. Em novembro, o IPA foi de 4,26% e a inflação 0,89%. No primeiro decêndio (intervalo de dez dias) de dezembro, o IPA foi de 1,39%. No ano, o IPA já acumula alta de 30,47%.

”A produção poderia ter crescido bem mais do que cresceu não fosse esse problema. Ele tem um impacto sobre o preço, na medida que os consumidores começam a disputar por esses produtos”, explica Renato da Fonseca, gerente de Economia da CNI.

Para metade (50,7%) dos empresários ouvidos pela Firjan, a oferta de insumos e matérias-primas nacionais se normalizará só a partir do segundo trimestre do ano que vem. Em outubro, o percentual era de 31,7%. Para 16,2% dos empresários, o cenário só irá se normalizar no segundo semestre do ano que vem.

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