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Economia comportamental em tempos de pandemia

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Economia comportamental em tempos de pandemia Pixabay
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As mudanças de hábitos geradas pela pandemia do novo coronavírus tiveram profundo impacto no comportamento da população, incluindo a forma de comprar, fazer pagamentos ou investir o dinheiro.

O Mercado1Minuto convidou Flávia Ávila, mestre em Economia Comportamental pela Universidade de Nottingham (Inglaterra), fundadora e CEO da consultoria InBehavior Lab, e Paula Sauer, doutoranda em comportamento do consumidor pela ESPM-SP e professora de Economia Comportamental da ESPM, para saber mais sobre como o nosso comportamento pode ser influenciado por grandes mudanças externas.

Mercado1Minuto: O que é economia comportamental e como ela funciona? Qual a influência dos fatores psicológicos para a tomada de decisão financeira do indivíduo?

Flávia: Em diferentes ciências, até aqui, consideraram que as decisões humanas são racionais, mas diversos estudos nessa área, nas últimas décadas, têm comprovado o contrário. Ou seja, as nossas decisões não são puramente racionais, são influenciadas por inúmeras tendências humanas já sendo mapeadas principalmente por meio de experimentos na economia comportamental. Para ilustrar isso de forma simples, basta refletir sobre algumas escolhas do ser humano que vemos diariamente que têm consequências negativas e continuamos fazendo como: dirigir e usar o celular ao mesmo tempo; não poupar ou se endividar; comer doce em excesso, entre outras. Mesmo sabendo das consequências e males que essas atitudes ocasionam, por que ainda a fazemos? As nossas escolhas são comumente influenciadas por vieses cognitivos – atalhos mentais que o nosso cérebro usa para tomar decisões de maneira mais rápida e com menor esforço possível. Para se ter uma ideia, foram identificados mais de 150 tipos deles. Diante dessa racionalidade limitada e da influência dos vieses, observamos que as pessoas podem tomar decisões que nem sempre são as melhores para elas.

Como a crise influencia e muda o comportamento financeiro do indivíduo?

Paula: Em cenários de crise, as pessoas tendem a fugir um pouco da razão. A tomada de decisão em cenário de crise, vem normalmente inundada de emoções, que toma o lugar da lógica, do pensamento racional, em etapas, ponderado. Em um cenário de crise, busca-se o conhecido, o confortável, mesmo que a solução não se encaixe perfeitamente no problema. Se serviu, se resolveu mesmo que de maneira apenas satisfatória e não ideal, escolhemos a alternativa.

Flávia: Justamente pelas pessoas não pensarem no futuro e valorizarem tão fortemente prazer imediato. A boa notícia é que esse momento pode levar os indivíduos a repensarem suas atitudes, não vivenciar que situações das mais diferentes inesperadas podem acontecer, e a importância de se precaver por exemplo com uma reserva de emergência. O sentimento de escassez também pode provocar efeitos poucos racionais devastadores em grande escala, além de sermos influenciados pelos outros e a prova social, tendemos a considerar que aquilo que é limitado é mais valioso.

No lançamento da nota de R$ 200, o Banco Central afirmou que um dos motivos que ela se fez necessária foi o entesouramento feito pela população. Por que as pessoas guardam dinheiro?

Paula: Na verdade, guardar dinheiro não é um hábito arraigado em nossa cultura. Guardar, não é exatamente instintivo, foi aprendido, não é intrínseco. Guardar, poupar, vender o excedente foi aprendido conforme a sociedade foi se sofisticando. Antigamente, caçávamos para nos alimentar, mais a diante, cultivávamos alimentos e trocávamos o excedente, por mercadorias que não conseguíamos produzir. Com a sofisticação do mercado e imensa quantidade que não se consegue produzir, o dinheiro, meio de troca universal, passa a ter um papel fundamental em nossa vida. No Brasil, em função de cenários adversos, os indivíduos têm receio de guardar dinheiro, “dinheiro na mão, é vendaval”. E quanto mais “invisível for o meio de pagamento, mais dificuldade de se guardar dinheiro o indivíduo terá. Por isso, é tão grande o número de dívidas no cartão de crédito.

O efeito manada é um dos principais causadores da escassez de produtos e da instabilidade em mercados financeiros, amplificando a catástrofe em situações de crise. O que é esse feito e como ele funciona?

Flávia: Esse efeito que é mais crítico em momentos de incerteza evidencia-se quando pessoas seguem o que outros estão fazendo em vez de usar suas próprias informações ou tomar decisões independentemente. Quando não sabemos sobre algo, o custo de procurar por informações é alto, e tendemos a seguir pessoas próximas ou especialistas, mesmo não sabendo qual o racional que usaram para chegar naquela ação.

Paula: Se não se sabe exatamente que caminho seguir, seguir o grupo nos parece a melhor alternativa. Fica também a sensação de que a responsabilidade pela decisão tomada se dilui no grupo. Um dos cenários de mais fácil observação do efeito manada é a bolsa de valores, onde muitas vezes boatos levam ao efeito manada.

Mesmo neste cenário de crise, o número de pessoas físicas que entraram na bolsa de valores brasileira é recorde. Quais podem ser os possíveis motivos disso?

Paula: Esse é exatamente um exemplo do efeito mandada. Têm alguns motivadores importante:

  1. A perspectiva de ganhos rápidos;
  2. A queda na taxa básica de juros;
  3. Está todo mundo indo, “eles devem estar sabendo de alguma coisa que não sei, melhor ir também”.

Flávia: Um dos motivos “externos” - só ampliado devido a pandemia - seria o nosso contexto de juros imensamente baixos que gera busca pelas aplicações mais rentáveis, mas também em discussões sobre o tema temos questões comportamentais envolvidas bem menos racionais. Na pandemia, as pessoas tiveram mais tempo e oportunidade de pesquisarem, trocarem e aprenderem sobre assuntos diversos, entre eles finanças, por meio de vários canais nas redes sociais. Outro fator levantado em discussões sobre o tema foi o grande volume de pessoas que de repente ficaram em casa com acesso facilitado às plataformas com valores de entrada mais baixos, corretoras e informações disponíveis, algo muito recente na nossa história. Outro fenômeno, sem dúvida, é o da explosão de canais e meios de comunicação com orientações de especialistas e/ou influencers.

Como o noticiário acaba influenciando na tomada das decisões dos indivíduos?

Flávia: A exposição excessiva às notícias diante das crises traz nas pessoas a sensação de urgência e medo diante do desconhecido. Então, elas tendem a observar o que a maioria das pessoas estão fazendo, julgando inconscientemente que as respectivas atitudes são as corretas e fazem igual (prova social e aversão à perda), além de não desejar ser o “único”, a não ter ou fazer determinadas escolhas. Então, os noticiários podem ser um propulsor para os indivíduos tomarem suas decisões de maneira impulsiva, o que chamamos de usar o Sistema 1 do cérebro – que são as decisões rápidas e automáticas. Ao conhecer o que nos motiva a fazer certas escolhas e como geralmente nos comportamos, o risco de tomarmos decisões precipitadas diminui, por isso sugerimos as pessoas estudarem o assunto para melhorarem seus processos decisórios na vida pessoal e profissional.


QUEM SÃO?

Flávia Ávlia, economia comportamental

Flávia Ávila - Fundadora e CEO da consultoria InBehavior Lab com mais de 15 anos de experiência em estudos experimentais sobre o comportamento humano (individual e grupo) usando experimentos de laboratório, online e campo. Economista pela Unb (Universidade de Brasília) e mestre em Economia Comportamental pelo CeDEx (Center for Decision Research and Experimental Economics) da University of Nottingham na Inglaterra. Professora em Economia Comportamental e Ciências Comportamentais Aplicadas em cursos de pós-graduaçao, educaçao executiva e InBehavior Academy.

Paula Sauer, economia comportamental

Paula Sauer - Economista e Mestre em Administração formada pela PUC-SP, e doutoranda em comportamento do consumidor pela ESPM-SP. Estuda e ministra aulas Economia e Finanças Comportamentais, Psicologia Econômica e do Consumo, Psicologia Social, Insights Comportamentais e Comportamento do Consumidor. Atua também como planejadora financeira CFP®, certificada pela Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros, onde faz parte do Conselho de Administração.

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