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Os impactos econômicos e ambientais do fast fashion

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Os impactos econômicos e ambientais do fast fashion Pexels
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Se você consome roupas de lojas como C&A, Forever 21, Renner, Riachuelo, Zara ou de sites da China como Aliexpress, Shein, Shopee e outros, você faz parte do grande grupo de pessoas que consome o chamado fast fashion e pode nem saber o que é e como funciona este tipo de produção. Fast fashion é um termo utilizado para designar itens que são produzidos, consumidos e descartados com grande velocidade no mundo da moda. Esta ação, que começou nos anos 70, acaba gerando um descarte de grande quantidade de peças e também danos ao meio ambiente.

Em geral, as empresas observam o que a população consome de marcas famosas e renomadas e fabricam em larga escala modelos parecidos. Esta tendência gera uma moda globalizada, que permite que os produtos circulem com poucas particularidades locais. Essas peças são geralmente fragmentadas para dar a sensação de exclusividade aos consumidores.

Após a rápida expansão do modelo, a indústria da moda se tornou a segunda mais poluente do mundo, graças à utilização de tinturas de baixa qualidade, insolúveis ou produtos à base de metais pesados. A confecção de tecidos sintéticos derivados de combustíveis fósseis também contribui negativamente para o planeta, graças às emissões de carbono e gases tóxicos na atmosfera, aumentando a quantidade de plástico nos oceanos.

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Um conceito importante é o de “estação” e “coleção”. Estes significam uma troca quase total nas roupas disponíveis nas lojas e o que sobra e não é vendido, é colocado em liquidações e também descartado.

Segundo uma pesquisa realizada pela Unicamp em 2018, no Brasil são produzidas cerca de 170 mil toneladas de resíduos de tecidos todos os anos e muito desse material é inutilizável. Os pesquisadores identificaram mais de 32 mil indústrias que fazem parte do segmento têxtil, porém apenas 21 faziam a reciclagem de tecidos, sendo 5 em São Paulo.

“O Brasil oficialmente importa mais de 223 mil toneladas de resíduos desde janeiro de 2008, a um custo de US$ 257.9 milhões. No entanto, no mesmo período, o país deixou de ganhar cerca de US$ 12 bilhões por deixar de reciclar 78% de resíduos sólidos gerados internamente, graças a falta de coleta seletiva”, afirmaram os autores do estudo.

A indústria do fast fashion também demonstra problemas sociais, uma vez que lojas já foram flagradas utilizando contratações ilegais, condições degradantes e pagamentos ínfimos, num geral, mão de obra precarizada ou escrava. Em 2017, a Zara foi responsabilizada por trabalho análogo ao escravo pela 4ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo por uma situação identificada em 2011 em que o Ministério do Trabalho encontrou 15 pessoas, incluindo uma adolescente de 14 anos, em regime análogo ao de escravidão.

Impacto do coronavírus

Este ano, o escritório de consultoria McKinsey&Co, em parceria com o Business of Fashion, lançou uma nova versão do seu report "The State of Fashion" com dados sobre o impacto do coronavírus na indústria da moda global.

“É no mundo em desenvolvimento, onde os sistemas de saúde geralmente são inadequados e a pobreza é abundante, que as pessoas serão mais atingidas. Para os trabalhadores em centros de fornecimento de baixo custo e fabricação de moda, como Bangladesh, Índia, Camboja, Honduras e Etiópia, períodos prolongados de desemprego trarão fome e doenças”, afirma documento.

O relatório afirma ainda que a crise pode ter ajudado a acelerar mudanças no consumidor, principalmente no que diz respeito a uma antipatia em relação aos modelos de negócios produtores de resíduos e uma maior expectativa de ações sustentáveis por parte das marcas.

“Enquanto isso, algumas das mudanças que testemunharemos no sistema de moda, como a mudança digital, o design atemporal e o declínio do atacado, são principalmente uma aceleração do inevitável – coisas que teriam acontecido mais adiante no caminho – a pandemia os ajudou a ganhar velocidade e urgência”, continua a publicação.

Uma pesquisa realizada pelo estudo mostra que 56% dos consumidores afirmaram que o principal motivo para comprar roupas durante a crise foram as promoções especiais. Como resultado, armazéns cheios de estoque sazonal não vendido ficaram parados ou foram descartados.

“A pandemia trará valores em torno da sustentabilidade, intensificando as discussões e polarizando ainda mais as visões sobre materialismo, excesso de consumo e práticas comerciais irresponsáveis. Os varejistas já foram criticados por manter as lojas abertas e por colocar os trabalhadores em risco durante surtos nos EUA, onde muitos carecem de benefícios para a saúde”, conclui.

Para o Sócio e Economista da VLG Investimentos, Leonardo Milane, o tripé formado pelos princípios ESG é um diferencial para as empresas.

“O investidor está cada vez mais atento a isso. Nesse tripé bem estabelecido: o sócio, o ambiental e uma governança muito boa e independente. As empresas que têm esse tripé, normalmente, a gente costuma observar uma dinâmica de valorização mais intensa e até menos volatilidade do que empresas que não têm”, afirma Milane.

Quais as soluções?

Em um dos relatórios realizados pela parceria entre McKinsey&Co e Global Fashion Agenda foram avaliados os esforços necessários da indústria da moda no combate à poluição ambiental. A conclusão mostrou que as principais contribuições que as marcas podem fazer para o meio ambiente são: melhorar a mistura de matéria-prima; aumentar o uso de transporte sustentável; melhorar as embalagens; descarbonizar as operações de varejo e reduzir a superprodução.

A Economia Circular é um dos conceitos que está se tornando cada vez mais presente na indústria da moda. Este foca na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia. Um exemplo é o Programa Circular da Avery Dennison, gerenciado pela Boomera, empresa especializada em economia circular. Este programa consiste na reciclagem de três tipos de resíduos gerados na conversão e uso final de rótulos autoadesivos: liner papel, liner filme (poliéster) e esqueleto filme.

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Fonte: Ideia Circular

Um movimento que vem ganhando força é o slow fashion, que preza a utilização de materiais recicláveis e tecidos orgânicos, além de apresentar transparência em suas relações de trabalho. O consumo consciente deve andar lado a lado com esse conceito.

É importante também acompanhar as ações realizadas pelas lojas. Uma das publicações que apresenta dados relevantes é o Índice de Transparência da Moda Brasil. Ela apresenta quais são as políticas sociais e ambientais das marcas, quem é responsável por cuidar dessa área, e como elas estão colocando isso em prática, além de outros fatores como a rastreabilidade, ou seja, a capacidade de saber de onde veio aquele produto, desde a confecção até a matéria prima.

Dica Mercado1Minuto

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O Mercado1Minuto recomenda o documentário “The True Cost” (2015), dirigido por Andrew Morgan, que aborda toda a dinâmica de produção do fast fashion. A obra foca no desabamento do Rana Plaza (Bangladesh), lugar onde havia uma fábrica e se produzia de forma terceirizada roupas para a cadeira de lojas britânica Primark, que deixou mais de 1000 mortos.

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