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ONGs e empresas atuam para abrir mercado de trabalho para refugiados

Atualizado em -

ONGs e empresas atuam para abrir mercado de trabalho para refugiados André Porto
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O desemprego pode ser ainda mais duro para quem acabou de chegar ao país fugindo da fome, da guerra ou de perseguições políticas e religiosas na terra natal. Segundo o mais recente relatório Refúgio em Números, lançado em 2019, com dados de 2018, pelo Conselho Nacional de Refugiados (Conare), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, o Brasil possui 11.231 pessoas reconhecidas como refugiados. Desse total, os sírios representam 36% da população refugiada com registro ativo no Brasil, seguidos dos congoleses, com 15%, e angolanos, com 9%.

Já o número de solicitações de reconhecimento é bem maior. Segundo o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), só em 2019, foram 82.552 pedidos, a maior parte deles (53.713) de venezuelanos, seguidos de haitianos (16.610), cubanos (3.999) e chineses (1.486). Muitos deles são médicos, advogados, engenheiros, artistas ou professores que precisaram fugir de seus países. E os empregos disponíveis no Brasil, quando existem, são para serviços gerais e administrativos, que são os que possuem a rotatividade mais alta e os salários mais baixos.

De acordo com o OBMigra, em 2019 foram admitidas no mercado de trabalho formal 23.121 pessoas entre refugiados e solicitantes de reconhecimento da condição de refugiados. No ano, foram 12.249 demissões, restando um saldo de 10.872 contratados.

Para os recém-chegados, a ponte para o mercado de trabalho são as ONGs, que atuam na capacitação tanto das empresas quanto dos candidatos.

“Damos aulas de português e fazemos um curso de capacitação básica para orientar sobre a realidade do mercado de trabalho brasileiro, como são os processos seletivos e quais são os direitos e deveres de um trabalhador no Brasil”, conta a Coordenadora do projeto Capacitação e Geração de Renda da ONG Adus, Fernanda Cobra.

Fundada em São Paulo, em 2012, a Adus já atendeu mais de oito mil pessoas de 63 nacionalidades e conseguiu empregar 356 delas. As vagas são conquistadas em empresas parceiras, que procuram as ONGs, geralmente por meio de comitês de Inclusão e Diversidade ou departamento de Recursos Humanos, para cumprir diretrizes internas de ampliação da diversidade entre os próprios funcionários.

A AeC, empresa mineira de call center, que possui 25 mil funcionários em 16 unidades do país, acabou de fechar uma parceira com o ONG para poder oferecer vagas para refugiados em áreas administrativas, já que para o atendimento ao público há a barreira inicial da língua.

“O instituto nos auxilia na capacitação e na sensibilização do nosso público interno para receber essas pessoas e nos ajuda a contribuir com oportunidades para o início de uma nova vida para essas pessoas”, explica Warney Silva, diretor de Pessoas da AeC.

A Adus também já fechou parcerias, entre outras empresas, com Deca, Danone, Boticário e Natura.

No grupo Carrefour, há dias específicos em que as células de RH estão focadas em contratação de refugiados. Em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (Ancur) a empresa faz capacitação em técnicas de varejo para mulheres refugiadas. O processo, ainda incipiente, resultou em quatro contratações.

A ONG Visão Mundial e o Instituto Ethos estão desenvolvendo o projeto “Ven, Tú Puedes!” para fornecer assistência para venezuelanos entre 18 e 35 anos que vivem em Manaus (AM), Boa Vista (RR) e São Paulo (SP). O projeto é financiado pelo governo dos EUA por meio do Bureau of Population, Refugees, and Migration (State PRM) e vai buscar uma mobilização empresarial para as contratações.

”Grande parte dos que ingressam no mercado de trabalho ocupam cargos informais, privados de direitos, sem proteção social e estão até mesmo inseridos em trabalhos precários”, explicou Caio Magri, diretor-presidente do Ethos, durante o lançamento virtual do projeto em outubro do ano passado.

A proposta do projeto é já inserir as grandes empresas desde a etapa inicial de pesquisa para que se encontrem soluções conjuntas.

“As empresas podem contribuir bastante, em identificar o potencial do mercado de trabalho, principalmente no estado de São Paulo. Queremos chegar a mais de 7 mil venezuelanos atendidos em todos os eixos do projeto, para além da iniciativa junto ao Ethos, inclusive somando outros estados do Brasil. Temos que identificar o potencial de empresas de diferentes setores que possam ofertar vagas e por outro lado a identificação das capacidades e formação que esses imigrantes têm e assim, inseri-los no mercado de trabalho”, destacou João Diniz, diretor regional da Visão Mundial para América Latina e Caribe.

refugiados fazem curso de hidráulica na deca.

Foto: André Porto

Refugiados

Segundo a Convenção das Nações Unidas, de 1951, o termo ‘refugiado’ se refere a “indivíduos que se encontram fora de seu país por fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais, e que não possa (ou não queira) voltar para casa”. A situação dos refugiados difere, portanto, da dos migrantes, especialmente os migrantes econômicos.

Como signatário da Convenção, o Brasil assegura aos refugiados o direito a obter o Registro Nacional Migratório (RNM), que substituiu o antigo Registro Nacional do Estrangeiro (RNE), o CPF e a Carteira de Trabalho. Assim que chega ao país, o refugiado recebe o Protocolo de Refúgio, que tem validade de um ano renovável até a conclusão do processo de registro pelo Conare.

Mercado1Futuro

Conheça melhor os desafios para ONGs e empresas no acolhimento de refugiados no mercado de trabalho brasileiro ouvindo o episódio do nosso podcast Mercado1Futuro que tratou sobre o tema.

Saiba como alguns projetos de capacitação e processos mais cuidadosos de recrutamento têm ajudado a mudar a realidade de milhares de estrangeiros no crescimento profissional dentro das companhias aqui no Brasil.

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