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Estrutura oferecida por países estrangeiros faz com que pesquisadores saiam do Brasil

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Estrutura oferecida por países estrangeiros faz com que pesquisadores saiam do Brasil Freepik
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Um movimento natural que acontece entre os pesquisadores brasileiros é a busca por uma oportunidade fora do país. Esse fator se deve a estrutura e investimentos fornecidos por outras nações. O cenário de pesquisas científicas no Brasil vem sofrendo cada vez mais cortes. Especialmente para o ano atual, a redução de recursos financeiros será intensa.

Segundo a Academia Brasileira de Ciências (ABC), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) vai sofrer uma redução de 8,3% em seus recursos, no atual ano, contando, com apenas R$ 22 milhões para fomento à pesquisa. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) vai ter um corte de R$ 1,2 bilhões em seu orçamento de 2021. O cenário fica ainda mais grave em relação ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) que terá redução de R$ 4,8 bilhões. Ainda neste ano, o Governo Federal estipulou um corte de 34% na verba anual do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Com esses reajustes, a parcela do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil destinada para a ciência será de aproximadamente 1,3% em 2021. Por outro lado, outros países destinaram porcentagens maiores para o seguimento. Os Estados Unidos vão usar 2,7% do valor de seu produto interno, a Alemanha 2,9%, o Japão 3,4% e a Coréia do Sul 4,3%.

A junção de fatores como a redução de recursos financeiros na ciência, a infraestrutura oferecida pelos países estrangeiros, a valorização da pesquisa e melhores oportunidades de emprego fazem com que os próprios estudiosos vejam com bons olhos a opção de sair do Brasil para trabalhar em seus projetos.

O mestre em Física na área de Sistemas Fortemente Correlacionados pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Nathan Giovanni, aponta que a falta de recursos financeiros é um grande empecilho para a realização de pesquisas no país.

“Não dá para fazer pesquisa sem investimento. Há campos na ciência que precisam de vários pesquisadores (da iniciação científica até professores), de máquinas que custam milhões, de infraestrutura e de um corpo técnico. Mas nada disso adianta se não tem vaga para trabalhar. O Brasil possui pesquisadores brilhantes. O Brasil não deixa a desejar. Mas não existe motivos para um pesquisador continuar no Brasil e não ter oportunidade de emprego. O pesquisador também precisa comer. A partir disso ocorre a fulga de cérebros, ou seja, pesquisadores saem do país”, relata o pesquisador.

Um exemplo que evidencia essa situação é a falta de reajuste em algumas bolsas oferecidas no país. Desde 2013, a remuneração paga a bolsistas de mestrado e de doutorado não é alterada. Para se dedicar as suas pesquisas, os mestres recebem R$ 1.500,00 e os doutores R$ 2.200,00.

Nathan ainda completa, relatando sobre sua experiência de pesquisa realizada fora do país, fazendo uma comparação com a realidade de um cientista dentro e fora do território brasileiro.

“A principal diferença é o investimento e oportunidades de emprego. Sobre investimento, eu estive num local que tinha toda a estrutura para eu realizar minha pesquisa, desde bibliotecas até uma boa equipe de funcionários para dar suporte técnico no prédio que eu atuava. Tive a oportunidade até de ir em congresso com tudo pago. Todos que estavam lá ganhavam alguma bolsa que dava para viver. Isso faz com que a única preocupação que deveríamos ter é em fazer pesquisa. No Brasil é difícil conseguir uma bolsa e elas pagam pouco. O estudante chega a trabalhar mais de 8h por dia. Não tem oficializado férias, auxílio saúde ou direito trabalhista”, explica o mestre em física.

O pesquisador brasileiro realizou estudo científico em Orsay, na França, no "Laboratoire de Physique des Solides" - Paris-Saclay. Nesse período, desenvolveu um projeto de resolução de cálculos numéricos focados no entendimento de sistemas fortemente correlacionados. O trabalho inclui descrever comportamento de materiais, a transição de metal-isolantes, efeitos de desordem ou supercondutividade a alta temperatura crítica.

Ele comenta sobre o tempo vivenciado em seu intercâmbio na França, destacando a importância da experiência de convivência com outros profissionais para o desenvolvimento profissional.

“É uma experiência que eu recomendo para todos os estudantes de doutorado. Digo doutorado, pois normalmente um doutorando já possui um projeto de pesquisa e pode aproveitar melhor a viagem do ponto de vista profissional. Encontrei com grandes pesquisadores, fui em congressos internacionais, tive acesso a boas ferramentas de trabalho como computador de alto desempenho e boas bibliotecas além de palestras e uma equipe de professores bem disposta a interagir com os alunos”, relata o pesquisador.

O Brasil ainda é um dos destaques mundiais em relação as pesquisas acadêmicas. Segundo o Science and Engineering Indicators 2020, da National Science Foundation (NSF), que utiliza como mostra o período de 2000 a 2018, o país ocupa a 11ª posição no ranking das nações que mais publicaram artigos científicos.

Atualmente, a Capes disponibiliza cerca de 100 mil bolsas para cientistas e a CNPq financia 80 mil. Segundo Nathan Giovanni, o número de bolsas ofertadas não atende à demanda de pesquisadores.

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