clique para ir para a página principal

Falta de insumos, câmbio e carga tributária comprometem fabricação de veículos no país

Atualizado em -

 Falta de insumos, câmbio e carga tributária comprometem fabricação de veículos no país Freepik
► Baterias de Nióbio podem colocar o Brasil na dianteira do desenvolvimento dos carros elétricos► Anfavea: Produção geral de veículos cai 3,5% em fevereiro, pior resultado para o mês desde a crise de 2016

As incertezas em relação à vacinação e o surgimento das variantes do novo coronavírus colocam pressão no setor automotivo brasileiro, que não consegue retornar à normalidade anterior à pandemia. Dados divulgados recentemente pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) mostram a dimensão do problema. Em fevereiro deste ano, os emplacamentos de veículos novos somaram 242.080 unidades, o que representa uma retração de 17,48%, ante mesmo mês de 2020 (293.357 unidades). Na comparação com janeiro de 2021 (274.081 unidades), o resultado também foi negativo, representando queda de 11,68%. No acumulado do primeiro bimestre de 2021, houve queda de 12,78%, com 516.161 unidades emplacadas, contra 591.816 veículos comercializados, no mesmo período do ano passado.

A produção de autoveículos também não conseguiu deslanchar, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Em fevereiro deste ano, foram produzidas 197 mil unidades, 3,5% a menos do que no mesmo mês do ano passado e 1,3% abaixo de janeiro. Desde a crise de 2016 não havia um número tão baixo para o período. Com isso, os estoques de veículos nas fábricas e nas concessionárias eram de 97,8 mil unidades até o fim de janeiro, suficientes para 18 dias pelo ritmo atual de vendas, um número ainda muito baixo comparado aos níveis pré-pandemia, de 30 a 40 dias de estoque.

O grande empecilho para o desenvolvimento do setor durante a pandemia é a crise provocada pelo desabastecimento de insumos, que vem há meses limitando a produção e provocando interrupções cada vez mais frequentes e prolongadas nas montadoras. As dificuldades da indústria de automóveis começaram principalmente com a falta de aço, materiais plásticos e pneus. Agora envolvem também componentes eletrônicos, o que agravou o problema, uma vez que a escassez de chips não deve ser resolvida em um futuro próximo.

“Na indústria, mesmo com os esforços das montadoras para aumentar a produção, a falta de disponibilidade de peças e componentes ainda persiste. Isso fez com que algumas fábricas tivessem de paralisar, temporariamente, a produção em fevereiro, afetando de forma importante a oferta de produtos”, comenta o presidente da Fenabrave, Alarico Assumpção Júnior, acrescentando: "Além disso, o aumento dos casos da Covid-19, que provocou o retrocesso da abertura do comércio em várias cidades, também contribuiu para a queda de vendas do mês de fevereiro”.

Dos 12 grupos fabricantes de carros de passeio em atividade no Brasil, 4 foram obrigados a paralisar total ou parcialmente suas fábricas por períodos que vão de cinco dias a dois meses. Na segunda-feira (8), por exemplo, a fábrica da Fiat em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, determinou férias coletivas para 10% dos seus funcionários. A empresa não divulgou o número de trabalhadores que participam da medida, mas o Sindicato dos Metalúrgicos da região informou que 602 pessoas vão sair de férias.

A Renault também passou por uma situação similar em sua fábrica em São José dos Pinhais (PR). Na semana passada, a fabricante francesa anunciou que fará investimentos de R$ 1,1 bilhão em seu complexo fabril no Paraná, mas ressaltou, em nota enviada ao Mercado1Minuto, que fatores como alta carga tributária e os elevados custos logísticos e de fabricação comprometem a competitividade para fabricar no país.

"A escassez de componentes eletrônicos não poupou o Grupo Renault, que fez o possível para limitar ao máximo o impacto da situação sobre a produção. O pico da escassez destes componentes deve ser atingido no segundo trimestre. Nossa estimativa mais recente, que leva em conta uma recuperação da produção no segundo semestre, aponta para um risco da ordem de 100.000 veículos em todo o mundo. No Brasil, estamos monitorando o cenário e até o momento não tivemos impactos", informou a Renault.

Para alavancar as vendas de automóveis neste ano, a Renault anunciou em janeiro o Renaulution, que é o planejamento estratégico de curto, médio e longo prazo do grupo no mundo. O Renaulution significa mover o foco de volumes para valor (de quantidade para qualidade).

"No Brasil, nós já começamos a implementar o Renaulution desde 2020. Os primeiros resultados já podem ser vistos no fechamento dos resultados comerciais de 2020, em função da mudança de foco estratégico para canais mais rentáveis. No Brasil, vamos manter a nossa força nos segmentos em que já somos fortes: com o Kwid e o segmento dos furgões com o Master", destacou.

O presidente e CEO da Volkswagen na América Latina, Pablo Di Si, lembra que a montadora alemã completa neste mês 68 anos de presença no mercado brasileiro e reforça que a relação com o país sempre foi de longo prazo e continuará sendo. Segundo ele, a fabricante está completando o ciclo de investimentos no Brasil na ordem de R$ 7 bilhões, maior ofensiva de produtos da história da marca no país, com 20 novos produtos em 5 anos. Sobre a escassez de insumos para o setor, o executivo revelou que a fabricante sofre com os impactos do coronavírus em sua operação. O principal gargalo, no momento, segundo ele, é a escassez de semicondutores.

"Desde a virada do ano, toda a indústria automotiva foi atingida pela falta deste insumo. O resultado são adaptações/reduções em toda a indústria na produção de automóveis, o que também afeta as marcas do Grupo Volkswagen. A questão cambial também é um fator preocupante, uma vez que os preços dos produtos são influenciados pela variação do dólar", pontua.

Para reverter os desgastes provocados pela pandemia, a montadora alemã informou que os planos para este ano são continuar investindo em produtos e inovação, com lançamento de um novo veículo e fortalecimento dos canais digitais.

"Vamos lançar no segundo trimestre deste ano o mais novo SUV de nossa ofensiva neste segmento para a região, o Taos. Continuaremos com os programas focados nas necessidades dos nossos clientes, que estão a cada dia buscando por mais tecnologia e conectividade. Ou seja, continuaremos a fortalecer nossos canais de vendas digitais, como é o caso da VW e-store e a concessionária digital (DDX) e concessionária digital móvel (DDX Sales), para proporcionar aos clientes a aquisição de forma segura e 100% digital", explica.

Normalização no segundo semestre

O Sindipeças, entidade que representa os fornecedores das montadoras, comunicou, em nota, que o abastecimento dos insumos nacionais que estão em falta nas linhas de montagem caminha para uma normalização até o início do segundo semestre. Para o presidente da entidade, Dan Ioschpe, as previsões apontam para um crescimento de 14,6% no faturamento da indústria de componentes automotivos, para R$ 142,6 bilhões, na esteira de um crescimento de 20% projetado para a produção das montadoras. Segundo ele, a preocupação maior é com o agravamento da crise sanitária, com o consequente endurecimento das restrições, do que com a situação dos suprimentos, que, conforme avaliou, caminha para uma solução.

“O Brasil talvez tenha sido mais afetado do que a média no abastecimento de materiais, com a recuperação de produção mais forte do que o previsto. É natural que isso acontecesse porque temos uma cadeia longa, diferente de um sistema em que apenas se montam as peças”, assegurou.

Relacionados:

► Baterias de Nióbio podem colocar o Brasil na dianteira do desenvolvimento dos carros elétricos► Anfavea: Produção geral de veículos cai 3,5% em fevereiro, pior resultado para o mês desde a crise de 2016

Leia mais: