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Como ensinar educação financeira para crianças?

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Como ensinar educação financeira para crianças? Unsplash
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A educação financeira infantil é um assunto distante para a realidade da maioria da população, especialmente para o Brasil. Uma pesquisa realizada pelo Itaú, Datafolha e Box1924 publicada em 2020 no Valor Investe, mostra que 49% dos brasileiros evita pensar em dinheiro para não ficar triste, e 46% prefere nem conferir a própria conta corrente. "Quando você ensina a criança a gerenciar os seus gastos, há uma melhora relação com o dinheiro no futuro", é o que afirma nosso entrevistado Carlos Eduardo Costa, consultor financeiro e autor dos livros "Sim, dinheiro é assunto para crianças" e "Meu dinheirinho".

Mercado1Minuto: Como surgiu o interesse por esse assunto na sua trajetória?

Carlos Eduardo: Eu já trabalho com educação financeira há mais de 15 anos e, muitas vezes, atendendo adultos com problemas na sua relação com o dinheiro e na sua vida financeira, eu percebia que muitas das dificuldades se davam a hábitos não aprendidos ao longo do crescimento. Isso já despertou meu interesse em educação financeira para crianças, porque eu acreditava que se essas pessoas tivessem tido, quando crianças, contato com hábitos financeiros mais saudáveis, elas já estariam, na idade adulta, usufruindo de um bom relacionamento com o dinheiro. Uma segunda motivação foram os meus filhos, eu e minha esposa sabíamos que precisaríamos trabalhar o tema de educação financeira com os nossos filhos. Isso porque hoje em dia as crianças participam cada vez mais ativamente da vida financeira de uma família. Meu João Pedro, de 4 anos, já pede um brinquedo, já pede para ver um filme, pede um lanche ou para comprar uma pizza. Trabalhar educação financeira dos nossos filhos vai ter um impacto positivo no nosso dia a dia. Tendo filhos mais conscientes na sua relação com o consumo e com o dinheiro, isso impacta positivamente a vida financeira da família. O maior sonho de todo pai e toda mãe em relação aos seus filhos é que eles, no futuro, encontrem um caminho e sejam felizes nele. Independente do sonho que eles desejam percorrer, se eles forem pessoas mais bem educadas financeiramente, essa caminhada será mais fácil.

Por que a educação financeira para crianças é negligenciada no Brasil?

Carlos Eduardo: A gente pode dizer que não é só educação financeira para crianças que é negligenciada no Brasil. Para adultos, ela começa ainda a engatinhar também. É um assunto muito recente. Os dois pilares que nos formaram são: a escola e a família. Sempre que eu começo uma aula no MBA em que eu sou professor, pergunto se os alunos tiveram alguma matéria de educação financeira e pouquíssimos afirmam que tiveram essa oportunidade. Muitos poucos também afirmam que tiveram o hábito de conversar sobre isso em casa. Hoje, no Brasil, a gente começa a ver algumas iniciativas. Por exemplo, desde o ano passado, a educação financeira faz parte da base nacional comum curricular.

Como funciona a relação entre o papel da família e das escolas na educação financeira?

Carlos Eduardo: É uma relação complementar. Educação financeira tem a ver com valores e o valor é algo familiar. As escolas têm um papel que pode ajudar os pais a trabalharem não só a questão financeira, como outros assuntos. Mas, com certeza, os pais não podem deixar a responsabilidade de lado e jogar tudo isso para as escolas.

Qual a idade ideal para começar a falar sobre dinheiro com os filhos?

Carlos Eduardo: A idade ideal é aquela em que as crianças começam a mostrar relação com o consumo. Hoje, as crianças estão cada vez mais precoces. Antes, a literatura afirmava que a partir dos 5 ou 6 anos as crianças apresentavam essa relação com o dinheiro, porém, hoje, cada vez mais crianças menores tem uma relação com o mundo do dinheiro. Elas pedem que os pais comprem um brinquedo ou adquiram algo. Isso varia de criança para criança, mesmo em famílias com mais de uma. É importante respeitar também a maturidade da criança, sem acelerar esse processo. Quando a criança começar a entrar nesse mundo, o ideal é começar a trabalhar o que eu chamo dos quatro pilares de uma boa educação financeira: ensiná-los a ganhar, gastar, doar e poupar. Devemos fazer isso aproveitando situações do cotidiano das famílias para introduzir esses valores.

Qual é a quantidade de dinheiro ideal para dar para as crianças e com qual frequência deve ser dado?

Carlos Eduardo: Muitas vezes, alguns pais e mães acreditam que, por dar uma semanada ou mesada para os seus filhos, já estão trabalhando educação financeira, mas não é tão simples assim. A educação financeira vai ser muito mais ampla do que dar esse dinheiro para os filhos, essa é só uma das ferramentas para trabalhar os pilares desse assunto. Antes de dar uma mesada ou semanada, a criança ter que ter escalado alguns degraus na relação dela com o dinheiro e com o consumo. Quando ela pede para fazer o pagamento na padaria, por exemplo, e pede para colocar o cartão, é o primeiro. O segundo degrau é quando ela pede para fazer isso de forma independente, ela sozinha ir lá comprar um picolé ou alguma outra coisa. Se a criança ainda não teve essa relação direta com o consumo, ela vai ter o dinheiro e não vai saber o que fazer com aquilo. O que eu costumo indicar, e a literatura também, é que, quando a criança é menor, o mais adequado é começar pela semanada. Porque a criança vai construindo a relação com o tempo pouco a pouco. Ela vai começando a ter noção do dia e da noite, depois, ela começa a descobrir que tem dias e que os dias são diferentes. A criança, então, adquire primeiro a noção de dias da semana, depois ela aprende que, ao juntar os dias, temos um mês.

Pagar os filhos para fazer tarefas domésticas é uma boa ideia?

Carlos Eduardo: Eu faço parte de uma corrente que diz que a educação financeira é para ensinar os filhos a ter uma relação melhor com o dinheiro. Da mesma maneira que temos que ensinar uma série de outras coisas. Inclusive, ensinar que algumas coisas que a gente tem que fazer na vida só por fazer, para conseguir viver em sociedade. Se eu começo a atrelar as tarefas domésticas ao dinheiro, eu corro dois riscos. Se eu falo para minha filha que ela tem que arrumar a cama para vivemos em harmonia nessa sociedade e que, se ela não fizer, eu vou descontar dois reais da mesada dela cada vez que ela não arrumar. Uma coisa que pode acontecer é ela falar "pode descontar". E aí? quem é que vai arrumar a cama? O segundo risco é criar uma criança que vai se transformar em um jovem e depois um adulto que tem "espírito mercenário". Esse é alguém que só faz as coisas por dinheiro. E a gente sabe que muitas coisas que fazemos na vida vão além da questão financeira.

Qual a maior dificuldade em ensinar finanças para os mais jovens?

Carlos Eduardo: Eu acho que algumas questões que estão ligadas à educação financeira das crianças na realidade são questões dos pais. E aí está a dificuldade. Por exemplo, os filhos hoje em dia estão muito acostumados a ganhar, eles recebem presentes frequentemente por questões nossas. E a justificativa é que temos uma dedicação grande na nossa carreira para dar tudo o que o filho precisa, todo o conforto material e esse, muitas vezes, é um erro grande. É óbvio que os filhos precisam desse conforto material, mas, mais ainda, precisam do nosso apoio, carinho, presença e atenção. Não é possível compensar os filhos com o material, o efeito colateral dessa atitude é a criança se prender pouco a essas coisas.

Como os pais podem estimular o filho a poupar e a pensar no consumo de forma mais consciente?

Carlos Eduardo: Poupança é trocar algo no presente para ter aquilo no futuro e as crianças nascem com o sentido imediato muito presente. É possível quebrar isso com atitudes diárias. Por exemplo, se a criança pede um chocolate no mercado, ela quer comer já naquele momento. Nesse caso, é possível que pai ou a mãe fale que vai comprar. Porém, a criança só vai poder receber aquilo quando chegar em casa ou depois de alguma refeição Algumas ferramentas podem ajudar nisso, como o cofre de porquinho. Ele mostra que é possível poupar algumas moedinhas e, no futuro, adquirir algum objetivo. A poupança precisa ter sentido para os adultos e para as crianças.

Você sabia que pode ouvir a entrevista completa no nosso podcast?


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Carlos Eduardo Costa - Consultor financeiro e colunista do Jornal Super Notícias. Costa é economista e autor de livros de educação financeira para crianças como "Meu dinheirinho" e "Sim! Dinheiro é assunto para crianças". A coleção "Meu dinheirinho" possui quatro livros que trabalham os principais pilares para a educação financeira, enquanto o segundo livro é um guia para adultos que desejam iniciar a educação financeira para as crianças. É possível continuar acompanhando o trabalho dele no instagram, clicando aqui.

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