clique para ir para a página principal

Pandemia prejudica mais de 237 mil jovens aprendizes que foram demitidos no Brasil

Atualizado em -

Pandemia prejudica mais de 237 mil jovens aprendizes que foram demitidos no Brasil Divulgação/Instituto Ramacrisna
► Cresce o número de jovens que investem no mercado financeiro► O diferencial da capacitação para a empresa e para o colaborador

Após um pouco mais de um ano desde a chegada do coronavírus no Brasil, mais de 86 mil vagas para jovens aprendizes foram fechadas no Brasil. Esses dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Destinado a jovens de 14 a 25 anos de baixa renda, o programa Jovem Aprendiz é considerado um dos mais importantes para a diminuição da desigualdade e da evasão escolar. Ao ser contratado como aprendiz, o adolescente ou jovem tem, além do salário e outros benefícios, garantia de formação profissional e de permanência na escola.

Essa diminuição nas vagas dos jovens aprendizes está ligada diretamente com o aumento de demissões de funcionários durante a pandemia. Isso porque a Lei da Aprendizagem estabelece que o número de aprendizes seja proporcional ao número de funcionários, de acordo com uma cota pré-estabelecida.

Outro fator importante é que, além de não ter um aumento no número de vagas, os contratos já existentes se encerraram sem a reposição de novos aprendizes. De acordo com o Caged, esses foram os fatores que fizeram com que os jovens sofressem mais com a crise.

Para o Núcleo Assistencial Irmão Alfredo (NAIA), organização sem fins lucrativos que oferece curso preparatório e profissionalizante para os jovens aprendizes, a pandemia trouxe enormes desafios para os alunos e potencializou os que já existiam.

”Tivemos um susto com a pandemia, da noite para o dia tudo virou de ponta cabeça, tivemos uma perda gigante de alunos que foram mandados embora no primeiro ano de pandemia”, explica Camila Tersaroli, professora voluntária do NAIA.

Entre os 237 mil jovens demitidos durante a pandemia está Gabriela Souza, jovem de 20 anos que teve a oportunidade de vivenciar as dores e as alegrias do primeiro emprego. Gabriela começou a trabalhar com 18 anos como jovem aprendiz e, em menos de um ano, precisou se afastar do emprego devido a pandemia do coronavírus que parou o mundo inteiro.

”Eu trabalhava em um hotel, tinha contato com diversas pessoas o dia inteiro, então o risco era muito grande. Estava prestes a completar um ano como jovem aprendiz quando recebi a notícia de que meu contrato seria suspenso”, explica a jovem.

Gabriela conta que a suspensão do contrato não afetou totalmente sua renda pois ainda recebia seus benefícios e 50% de seu salário, mas precisou cortar gastos para poder equilibrar em sua renda familiar.

Salário do aprendiz complementa a renda familiar

Muitas famílias, que dependiam dessa renda, foram impactadas por essa redução nas vagas. A situação se torna alarmante quando observado que um aprendiz, em São Paulo, ganha em média R$ 998,00, valor maior do que oferecido no auxílio emergencial.

”Depois de 4 meses com contrato suspenso fui desligada da empresa. Fiquei muito triste e preocupada pois não sabia como iria conseguir ajudar em casa. Precisei me reinventar, comecei a publicar vídeos na internet e fui convidada para criar conteúdo para um buffet”, diz Gabriela Souza.

Desde então, a jovem e estudante de Recursos Humanos tem procurado emprego ou estágio, mas não obteve sucesso. O trabalho informal para a página de um espaço de festas foi o que ajudou Gabriela a se reerguer e voltar a ajudar nas despesas de casa.

"Em relação aos estudos, estamos perdendo muitos alunos. Eles precisam a todo custo de um emprego, na maioria das vezes eles conseguem apenas um trabalho informal, mas entre a necessidade dentro de casa e seus planos de estudo para o futuro, a necessidade sempre fala mais alto", destaca Camila Tersaroli.

Uma pesquisa feita durante a pandemia, pelo Instituto Brasileiro de Aprendizagem, o Saber, mostrou que em 16% das famílias dos aprendizes no Brasil, o jovem é a única fonte de proventos da casa. Outros 79,2% dos lares possuíam receita entre um e cinco salários-mínimos, e 18% estavam inseridos em programas de auxílio governamental.

A professora e voluntária do NAIA explica que alguns de seus alunos fazem parte desses 16% dos aprendizes que trazem a principal fonte de renda para sustentar a família. Para ela o principal desafio está na reestruturação para conseguir ajudar os jovens a atingirem suas metas sem que seja necessário largar os estudos.

”Uma vez que se para de estudar e começa a trabalhar, dificilmente você voltará a estudar de novo. E quando você não estuda, dificilmente irá conseguir melhorar seu cargo no trabalho. Então. isso acaba virando um ciclo sem fim”, diz Tersaroli.

O Caged mostrou que o primeiro trimestre de 2021, mesmo com um crescimento histórico na oferta de empregos durante este período, ficou muito longe de recuperar todas as vagas perdidas desde o início da pandemia no mercado de trabalho para os jovens.

Segundo Camila, agora que as coisas estão voltando ao normal, fica evidente que muitos jovens estão sem propósito e sem forças para continuar no mercado de trabalho.

”O psicológico de todo mundo ficou afetado, mas o do jovem principalmente. Eles estão nessa fase de transição, onde começam a pensar nos sonhos, nos planos de carreira, em como vão se estruturar para sair de casa, e a pandemia brecou tudo isso”, finaliza a professora.

Relacionados:

► Cresce o número de jovens que investem no mercado financeiro► O diferencial da capacitação para a empresa e para o colaborador

Leia mais: